Inspeção de soldadura e ensaios não destrutivos
Um cordão bonito não quer dizer uma soldadura sã. A inspeção serve para confirmar que a junta cumpre o projeto e as normas, e começa antes de soldar, continua durante e termina depois. Para quem solda, perceber os ensaios é saber o que vão procurar no teu trabalho.
A inspeção começa sempre pela inspeção visual (VT). Para defeitos à superfície juntam-se os líquidos penetrantes (PT) e as partículas magnéticas (MT). Para defeitos internos usam-se os ultrassons (UT) e a radiografia (RT). Equipamento estanque leva ainda ensaio de pressão, tipicamente a 1,3–1,5 vezes a pressão de projeto.
Os ensaios não destrutivos lado a lado
| Ensaio | O que deteta | Materiais | Nota |
|---|---|---|---|
| Visual (VT) | Defeitos de superfície, crateras, dimensões, alinhamento | Todos | O mais simples, rápido e usado |
| Líquidos penetrantes (PT) | Descontinuidades abertas à superfície | Não porosos; muito usado em inox e não ferrosos | Cinco etapas, do limpar ao revelador |
| Partículas magnéticas (MT) | Superficiais e subsuperficiais (até ~3–4 mm) | Só ferromagnéticos (aço ao carbono, ferro fundido) | O pó acumula-se onde o campo “foge” |
| Ultrassons (UT) | Fissuras, inclusões, falta de fusão e poros em toda a espessura | A maioria dos metais | O método volumétrico mais usado (2–10 MHz) |
| Radiografia (RT) | Poros e fissuras internos, que aparecem mais escuros | A maioria dos metais | Imagem permanente; exige segurança radiológica |
Capítulo 13 do e-book A Forja do Soldador.
Como funciona cada ensaio
Líquidos penetrantes
Limpa-se a zona, aplica-se um líquido que entra nas fissuras por capilaridade, espera-se o tempo de penetração, remove-se o excesso e aplica-se um revelador. O revelador “chupa” o penetrante que ficou nas fissuras e desenha-as à superfície. Só vê o que está aberto à superfície.
Partículas magnéticas
A peça é magnetizada. Onde há uma descontinuidade, o campo magnético sai para fora e o pó magnético junta-se ali. Deteta também defeitos pouco abaixo da superfície, mas não funciona em inox austenítico nem em alumínio.
Ultrassons e radiografia
São os métodos volumétricos: veem através da espessura. Os ultrassons medem o tempo que o eco demora a voltar e revelam a posição, o tamanho e a orientação do defeito. A radiografia usa raios X ou gama sobre um filme: zonas com poros ou fissuras deixam passar mais radiação e ficam mais escuras.
Ensaios de pressão
Reservatórios, tubagem e depósitos que têm de ser estanques levam um ensaio hidrostático ou pneumático depois de soldados. No hidrostático, o equipamento é cheio de água e pressurizado 1,3 a 1,5 vezes acima da pressão de projeto. Uma fuga ou deformação excessiva denuncia um problema na soldadura.
O e-book junta os defeitos, a inspeção e as normas em capítulos seguidos, para saberes o que procurar num cordão antes de o entregares.
O que podes verificar sozinho
A inspeção visual não precisa de equipamento caro e deteta a maioria dos defeitos de superfície. Depois de limpar a escória e os salpicos, com boa luz, revê:
- Início e fim do cordão: crateras, poros e falta de fusão aparecem muitas vezes aí.
- Cobertura da junta: o cordão cobre toda a junta, sem zonas por encher?
- Dimensões: perna do filete, garganta e largura do cordão, medidas com um calibre de soldadura.
- Bordas: mordeduras ao longo do cordão e sobreposição (metal “pousado” sem fundir).
- Superfície: poros, fissuras visíveis, salpicos e escória presa.
- Alinhamento e montagem: a peça ficou no esquadro ou empenou?
Se encontrares algum destes sinais, o guia de defeitos na soldadura diz-te a causa provável. Para linhas finas que aparecem depois de arrefecer, vê fissuras na soldadura.
Nos teus provetes de treino, corta um cordão ao meio de vez em quando e lixa a face do corte. Vês logo se houve penetração e fusão, coisa que o aspeto de cima nunca te diz.
Níveis de qualidade: EN ISO 5817
Na indústria, um defeito só é “defeito” quando ultrapassa o limite aceite. A norma EN ISO 5817 define três níveis de qualidade para soldaduras por fusão em aço: B (o mais exigente), C (intermédio) e D (o menos exigente). O projeto diz qual se aplica, e o inspetor avalia cada imperfeição contra esse nível.
Quem faz os ensaios
Os ensaios PT, MT, UT e RT são feitos por pessoal qualificado segundo a EN ISO 9712, a norma de qualificação de pessoal de END, com níveis 1, 2 e 3. Em Portugal, organismos como o ISQ asseguram essa qualificação. A qualificação do soldador é outra norma: vê EN ISO 9606.
Perguntas frequentes
Qual é o ensaio não destrutivo mais usado na soldadura?
Os líquidos penetrantes servem para inox?
Que ensaio deteta defeitos dentro do cordão?
O que são os níveis B, C e D?
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